Amizade: nosso (des)apego comum!

amizade

Flávio Romero Guimarães

 

Vinícius de Moraes, o “poetinha camarada” na expressão afetuosa de Chico Buarque e Toquinho, e maior representante da “cariocanidade” que sintetiza o caldo das múltiplas identidades do povo brasileiro, em certa oportunidade escreveu o Samba da Benção, em cujo conteúdo deixou para a posteridade uma das suas frases mais notáveis, a saber:

“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”.

Certamente, a vida é um caminho de encontros e desencontros.

Nesta caminhada, conhecemos pessoas com as quais, muitas vezes, compartilhamos projetos comuns de vida.

De certa forma, estas pessoas nos transformam, nos modificam e nos fazem crescer.

Nestes entrecruzamentos interpessoais, cada um vai construindo os seus significados existenciais, agregando valores adquiridos do convívio e das experiências com o outro.

Algumas vezes, temos a felicidade de partilhar caminhos com o outro de mãos dadas.

Em outras, a presença do outro em nossa caminhada é marcada por um aprendizado que nasce da dor, da mágoa, da tristeza ou da decepção.

Ainda assim, estes aprendizados incorporam novos valores à vida.

Há pessoas que surgem. Há pessoas que desaparecem!

Há projetos que se iniciam. Há projetos que finalizam!

E, desta forma, numa caminhada existencial por caminhos largos ou por simples veredas, vamos individual e coletivamente, superando as adversidades e avançando, numa marcha inexorável ao futuro, sempre incerto.

Independentemente dos encontros e dos desencontros, a vida continua, subjugada ao desgaste e à voracidade do Tempo, aos olhos do homem, surpreendentemente, cada vez mais curto.

O previsível e o determinado são meras especulações humanas.

Nesta perspectiva objetiva da imprevisibilidade e da inconcretude do futuro, é preciso cultivar no presente cada valor agregado do outro em nossas vidas, a exemplo da amizade.

A amizade não deve se restringir aos momentos de caminhada com as mãos dadas, onde os projetos comuns, obrigatoriamente, nos vinculam ao outro.

A amizade está para além dos projetos do presente.

Encontros e desencontros na vida. Apegos e desapegos?

Que a amizade seja o nosso verdadeiro apego.

Que os projetos comuns, efêmeros como o próprio instante presente, seja um aprendizado, alicerçado no desapego.

Desapegar-se é compreender a dimensão transcendental da vida, enxergando a caminhada como uma marcha rumo a um futuro sempre imprevisível.

Não ter esta compreensão é um desapego que faz sofrer.

É uma forma que nos aprisiona aos contextos efêmeros, por meios de grilhões que nos prendem numa gaiola, impedindo-nos de voar rumo à luz presente, para além do horizonte.

Portanto, cuidemos da amizade como um zeloso jardineiro que valoriza cada instante de contato com a flor, não somente regando-a mais, também, livrando-a das ervas daninhas.

Se a vida é efêmera e breve, cada amigo que conquistamos e sabemos preservar, são novas flores que plantamos no jardim da alma, que marcam com tonalidades multicolorias as trilhas da caminhada.

Se a vida é marcada por encontro e desencontros.

Ou por apegos e desapegos.

Se na caminhada encontramos o outro e seguimos de mãos dadas.

Ou seguimos por trilhas opostas.

O que importa é o próprio caminhar.

No caminhar, como afirmou Mahatma Gandhi, está a essência da almejada felicidade.

Finalmente, inspirado nas palavras do poeta gaúcho Mario Quintana, destaco:

“A amizade é um amor que nunca morre”

E não deve acabar como consequência de um ciclo de vida que se finda ou por uma parada na caminhada.

Os contextos presentes mudam.

Os ciclos findam.

A vida se renova.

Novos projetos surgem, felizmente.

E, assim, vamos seguindo como andantes peregrinos em busca da nossa finitude comum.

A amizade verdadeira fica, enquanto tudo passa.

A vida passa. O tempo passa. Tudo passa!

“Eles passarão. Eu passarinho!”

Como passarinho, deixar o ninho é compreender o maravilhoso valor de voar.

Voemos, nós!

João Pessoa, 21 de novembro de 2013.

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